Uma pergunta incômoda ronda o debate político brasileiro e merece ser enfrentada com honestidade intelectual: se a direita brasileira é realmente tão melhor que a esquerda — mais competente na gestão, mais alinhada aos valores da família, mais comprometida com a liberdade econômica e a moralidade pública —, por que necessita recorrer sistematicamente à publicação de fake news?
A pergunta não é capciosa. Parte da própria premissa que os autodenominados “conservadores” tanto repetem em discursos, redes sociais e programas de entrevista. Se o campo é tão superior em ideias e propostas, deveria vencer o debate nos méritos, nos argumentos, na comparação direta com as experiências de governo adversárias. No entanto, o que se observa, cada vez mais, é a opção pela via da desinformação organizada.
A resposta para essa aparente contradição não é simples, mas pode ser resumida em uma constatação incômoda: as fake news não são utilizadas por fraqueza argumentativa acidental, mas sim como ferramenta política deliberada e estrutural. Seu objetivo não é convencer pelo debate, mas desestabilizar pelo atalho. Criar narrativas paralelas que mobilizam a base emocionalmente, desacreditar instituições e destruir adversários sem a necessidade de confrontar seus argumentos reais.
O parlamento como fonte da mentira
O fenômeno adquire contornos preocupantes quando parte de dentro do Congresso Nacional. Parlamentares com milhões de seguidores e, portanto, com foro privilegiado, transformaram-se em vetores permanentes de desinformação.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tornou-se caso emblemático dessa estratégia. Em janeiro deste ano, gravou vídeo afirmando, falsamente, que o governo Lula passaria a “monitorar e taxar” transações via Pix. A mentira foi desmentida pela Receita Federal, que explicou que a regra em questão apenas igualava fintechs a bancos tradicionais na obrigação de informar movimentações acima de R$ 5 mil — algo que já existia desde 2020 sem qualquer taxação.
O estrago, porém, estava feito. O vídeo foi compartilhado por dezenas de outros políticos — entre eles Bia Kicis (PL-DF), Cleitinho (Republicanos-MG) e Magno Malta (PL-ES) —, somando mais de 40 milhões de visualizações em uma única semana. A dimensão do dano foi tamanha que o governo recuou em medidas de fiscalização. O secretário da Receita alertou: a decisão acabou beneficiando indiretamente o crime organizado, que utilizava fintechs para movimentar dinheiro ilícito sem ser incomodado.
O caso ilustra perfeitamente a contradição: se a direita realmente tivesse propostas melhores para a economia e a simplificação tributária, por que precisaria inventar uma taxação inexistente para mobilizar a população?
A imprensa que abraça a mentira
A desinformação não se restringe às redes sociais. Encontrou abrigo e amplificação em veículos que se apresentam como jornalismo independente. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a tentativa de golpe de Estado detalha o papel central da Jovem Pan. Segundo a Procuradoria, a emissora utilizou sua concessão pública para propagar falsas alegações de fraude nas urnas eletrônicas, dar palco a militares alinhados a planos golpistas e atacar ministros do Supremo Tribunal Federal.
O programa “Os Pingos nos Is” foi citado por veicular ao vivo uma live de Jair Bolsonaro com informações falsas sobre o código-fonte das urnas. Revista Oeste e Terça Livre também são apontadas na denúncia como parte da “imprensa bolsonarista” que atuou para deslegitimar o resultado das eleições de 2022.
Se a direita realmente tivesse argumentos sólidos para questionar o processo eleitoral — algo que nenhuma auditoria nacional ou internacional confirmou —, por que precisaria recorrer a alegações fantasiosas sobre urnas eletrônicas e lives com “supostas provas” que nunca vieram a público?
A tecnologia a serviço da manipulação
As técnicas evoluíram. Não se trata mais apenas de mentiras simples, mas de manipulações sofisticadas. Um vídeo manipulado com inteligência artificial (deepfake) mostrou o apresentador William Bonner chamando Lula e Alckmin de “ladrões”. O vídeo original, de 2021, era sobre uma reportagem qualquer. A voz foi sintetizada e as imagens foram inseridas, criando uma falsa declaração que acumulou mais de 3 milhões de visualizações.
Há também a descontextualização de discursos. Políticos editaram uma fala de Lula sobre o salário mínimo para fazê-lo parecer que ele disse que “pobre nasceu para trabalhar, não para estudar”. No contexto real, Lula criticava a visão elitista da sociedade que pensa dessa forma, defendendo o direito dos pobres à educação. A omissão do contexto criou uma mentira eficaz.
A força da narrativa sobre os fatos
Voltemos à pergunta inicial. Se a direita brasileira é tão superior — como seus representantes e eleitores proclamam —, por que a necessidade de fake news? A resposta, por mais desconfortável que seja para ambos os lados do espectro político, é que a mentira organizada, em diversos momentos, mostrou-se mais eficaz para mobilizar, criar inimigos comuns e desestabilizar o sistema do que o debate honesto de ideias.
Quando um político precisa inventar uma taxação do Pix para ganhar engajamento, está admitindo, ainda que inconscientemente, que seu próprio programa econômico não é suficientemente atraente para mobilizar a população. Quando um veículo de imprensa precisa propagar teorias conspiratórias sobre urnas eletrônicas, está reconhecendo que não consegue vencer o adversário no voto real.
O volume de desinformação, que muitas vezes parte de dentro do Congresso Nacional e é amplificado por uma estrutura midiática e digital, não é sinal de força — é estratégia de poder que revela fragilidade argumentativa. Como mostram as investigações em curso, essa estratégia tem um custo altíssimo para a democracia, a economia e a paz social do país.
Cabe à sociedade, às instituições e ao jornalismo profissional seguir desmascarando essas práticas. Não por sectarismo ou defesa de um campo político específico, mas porque a democracia simplesmente não sobrevive onde a mentira tem o mesmo status da verdade. E, nessa disputa, todos nós, independentemente de nossa posição ideológica, temos algo fundamental a perder.
Afinal, se a direita precisa de fake news para vencer, talvez não seja tão superior assim. E se a esquerda não consegue desmascarar essas mentiras de forma eficaz, talvez também precise repensar suas estratégias de comunicação. O problema, como se vê, é sistêmico — e diz respeito a todos que ainda acreditam que a política deve ser o espaço do confronto de ideias, não do vale-tudo informacional.
